No outono de 1866, Fiódor Dostoiévski estava encurralado. Devedor contumaz dos cassinos alemães, assinou um contrato desesperado: entregaria um romance inédito em menos de um mês ou cederia ao editor, por nove anos e sem remuneração, os direitos de toda a sua obra. Ditou O Jogador em apenas 27 dias. O livro que o livrou de perder os direitos sobre sua obra é talvez a dissecação mais precisa já escrita da mente de quem aposta. Ninguém conhecia o assunto melhor do que o autor, que vinha destruindo a própria vida por não conseguir se afastar das mesas de jogo.
Seu protagonista, Aleksei, vive o que todo apostador sonha: numa noite febril, ganha uma fortuna na roleta. E é exatamente a vitória que o destrói. A mulher que ele pretendia salvar recusa o dinheiro; ele parte para Paris, torra tudo em semanas e termina errante entre cassinos, sempre prometendo a si mesmo que amanhã recomeçaria a vida. Um século e meio depois, Aleksei se multiplicou: está no ônibus, no intervalo do expediente, na arquibancada virtual, e o cassino agora cabe no bolso, funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano e estampa a camisa do time do coração. O que Dostoiévski descreveu como uma compulsão capaz de destruir vidas, o Brasil normalizou como entretenimento.
Nem sempre foi assim. Durante décadas, o país manteve postura restritiva em relação aos jogos de azar: os cassinos foram fechados em 1946, o jogo do bicho permanece ilegal e os bingos, após breve período de funcionamento, voltaram a ser proibidos. Esse cenário mudou com a legalização das apostas de quota fixa, as chamadas bets. Autorizadas por lei em 2018, só foram efetivamente regulamentadas anos depois, quando o mercado já havia explodido. Em pouco tempo, o Brasil passou a figurar entre os maiores mercados de apostas do mundo, com centenas de operadores autorizados e movimentando bilhões de reais por mês, sem que houvesse um debate à altura sobre o que significa colocar um jogo de azar, disponível a qualquer hora, no celular de cada cidadão.
Basta assistir a uma partida de futebol para perceber a dimensão do fenômeno. As casas de apostas estão nos uniformes dos clubes, nas placas dos estádios, nos intervalos comerciais e nas redes sociais, onde influenciadores associam o jogo à promessa de ganhos rápidos. Ao final de cada propaganda, o aviso de praxe: “Jogue com responsabilidade”. O problema, porém, não está na falta de responsabilidade do jogador, mas na sofisticação do sistema armado contra ele. As plataformas investem milhões para entender como as pessoas decidem, como reagem às recompensas e por que insistem diante das perdas. Esperar que três palavras neutralizem essa engenharia de estímulos não é prudência; é ingenuidade.
A Copa do Mundo acaba de demonstrar o poder dessa engrenagem. Segundo levantamento da fintech Klavi, baseado em dados do Open Finance e publicado pela Folha de São Paulo em 2 de julho, o valor médio depositado por usuário em plataformas de apostas saltou de R$ 188 por dia, antes do torneio, para R$ 272 durante a competição, chegando a R$ 524 no dia seguinte ao jogo da seleção brasileira contra Marrocos. Na amostra analisada pela Klavi, um em cada três usuários realizou transferências para plataformas de apostas desde o início do Mundial, proporção três vezes superior à observada um mês antes. Quaisquer que sejam os limites dessa base de dados, o padrão é inequívoco: grandes eventos esportivos, cercados de publicidade incessante, convertem emoção em depósitos e torcedores em apostadores.
O primeiro grande alerta sobre as bets ganhou as manchetes em 2024, quando um levantamento do Banco Central revelou que beneficiários do Bolsa Família haviam transferido bilhões de reais para plataformas de apostas por meio do Pix. A repercussão levou o Governo Federal a impor restrições de acesso desse público às bets, medidas que acabaram judicializadas e chegaram ao Supremo Tribunal Federal. O episódio, entretanto, produziu uma impressão equivocada: a de que o problema estaria concentrado entre pessoas de menor renda ou com menor nível de instrução.
Os dados da Klavi ajudam a desfazer essa impressão. Os 10% de apostadores que mais depositam movimentaram cerca de vinte vezes o valor transferido pelos 90% restantes, uma concentração que revela que boa parte da receita do setor não vem do apostador ocasional que arrisca o valor de um lanche, mas de uma pequena parcela de clientes com depósitos muito acima da média. E as evidências clínicas sobre jogo problemático apontam na mesma direção: a compulsão não escolhe classe social. Educação, inteligência, estabilidade profissional e renda elevada não imunizam ninguém contra os mecanismos psicológicos explorados pelas plataformas. Em muitos casos, uma renda mais alta apenas permite sustentar perdas maiores antes que o problema se torne evidente.
É justamente aqui que a previdência complementar revela sua maior virtude. No jogo, as probabilidades e o tempo trabalham contra o apostador: cada nova rodada aumenta a chance de que o resultado esperado pela matemática prevaleça, transferindo riqueza do jogador para a casa de apostas. Na previdência, ocorre exatamente o contrário. Cada contribuição fortalece o patrimônio acumulado, os juros compostos fazem os rendimentos incidirem sobre os próprios rendimentos, e o tempo transforma disciplina em segurança financeira. A emoção que seduz nas bets é substituída pela previsibilidade de um projeto construído ao longo de décadas.
Para os membros e servidores do Poder Judiciário da União, do Ministério Público da União e do Conselho Nacional do Ministério Público, essa lógica é potencializada pela Funpresp-Jud. Além da rentabilidade dos investimentos, cada contribuição conta com a contrapartida do patrocinador, um benefício imediato que dificilmente poderia ser obtido por meio de qualquer investimento individual. O plano ainda oferece proteção para riscos que normalmente passam despercebidos durante a vida ativa: o Seguro de Renda garante amparo financeiro em situações como incapacidade permanente laboral ou falecimento, protegendo o participante e sua família justamente quando a renda mais faz falta. Não se trata apenas de acumular recursos para o futuro, mas de construir uma rede de segurança para enfrentar os imprevistos da vida.
Dostoiévski conhecia, por experiência própria, o fascínio da aposta e o preço cobrado pela ilusão de recuperar rapidamente o que foi perdido. A previdência segue a lógica oposta: não promete enriquecimento instantâneo nem emoções intensas, mas oferece algo muito mais valioso: a certeza de que a prosperidade não nasce de um golpe de sorte, e sim da repetição de boas decisões. O tempo, pior inimigo do apostador, é o maior aliado de quem constrói patrimônio.
A última página de O Jogador encontra Aleksei convencido de que amanhã fará a aposta capaz de mudar sua vida. Dostoiévski, felizmente, escreveu um final diferente para si mesmo. Em 1871, abandonou definitivamente os cassinos; na década seguinte, produziu Os Irmãos Karamázov, considerado por muitos como o seu maior romance. Não foi apenas uma vitória da força de vontade: contou com o apoio incondicional de sua esposa, Anna, e com o fechamento de diversos cassinos alemães após a unificação do país. Como os cassinos eram proibidos em seu próprio país, o escritor russo frequentava justamente esses estabelecimentos na Alemanha. Essa mudança eliminou parte das tentações às quais estava continuamente exposto. Pequenas decisões de hoje, amparadas pelo ambiente certo, tornam-se segurança para toda uma vida, e a melhor aposta continua sendo aquela em que o tempo joga a seu favor.