Por Jurandir Sell Macedo, Doutor em Finanças Comportamentais
Eu sou daquelas pessoas que adoram conversar com desconhecidos. Recentemente, peguei um Uber dirigido por um senhor que aparentava ser alguns anos mais velho do que eu. Perguntei se dirigia para complementar a aposentadoria. Ele respondeu que não. Tinha uma boa situação financeira, era aposentado e recebia benefício de um fundo de previdência complementar.
Contou que começou a dirigir para se distrair. Depois da aposentadoria, percebeu que precisava de uma rotina que o fizesse sair de casa e encontrar gente. Hoje dirige de quatro a cinco horas por dia. A atividade lhe proporciona renda extra, mas o mais importante, segundo ele, é ter um motivo para sair e conhecer pessoas novas.
Quando descobriu com o que eu trabalhava, trouxe sua principal preocupação. Disse que sua reserva previdenciária não vinha acompanhando o CDI e que alguém havia lhe aconselhado a sacar todo o dinheiro e investir por conta própria. Expliquei por que uma decisão desse tipo, tomada apenas com base nessa comparação, poderia ser bastante temerária.
O mercado financeiro brasileiro transformou o CDI em uma espécie de régua universal. O CDI é usado em operações de curtíssimo prazo entre instituições financeiras, e a taxa DI acompanha de perto a Selic, a taxa básica de juros da economia. Por isso, tornaram-se referências naturais para boa parte dos investimentos de renda fixa.
Essa comparação faz sentido para objetivos de curto prazo. Uma reserva para imprevistos precisa estar disponível, ter baixa volatilidade e oferecer segurança. Nesse caso, acompanhar o CDI é uma boa referência, porque o objetivo principal não é maximizar retorno, mas preservar o dinheiro e mantê-lo acessível.
Quando falamos de previdência, porém, a lógica muda. Uma reserva para aposentadoria não está sendo construída para o mês seguinte. Em muitos casos, será utilizada daqui a dez, vinte ou trinta anos e continuará financiando parte da vida do participante depois disso. Nesse horizonte, a pergunta deixa de ser “ganhou do CDI neste mês?” e passa a ser “esse patrimônio está crescendo de maneira adequada para preservar meu poder de compra e financiar minha aposentadoria?”
Em finanças existe uma relação fundamental entre risco e retorno esperado. De maneira geral, para buscar retornos maiores é preciso aceitar algum grau adicional de risco. Promessas de retorno elevado, garantido e sem risco devem despertar desconfiança. Isso não significa que todo risco deva ser evitado, mas que precisa ser compreendido e compatível com o objetivo do investimento.
Entre os principais riscos estão o de crédito, a possibilidade de o emissor não honrar suas obrigações, e o de mercado, decorrente da oscilação dos preços. Em uma carteira previdenciária de longo prazo, alguma exposição à volatilidade pode ser necessária para buscar retornos reais maiores. Quanto mais distante o uso da reserva, maior tende a ser a capacidade de atravessar oscilações; à medida que a aposentadoria se aproxima, cresce a importância da estabilidade.
Outro ponto essencial é a diferença entre rentabilidade nominal e rentabilidade real. A rentabilidade nominal é o número que aparece no extrato, o percentual bruto que a carteira rendeu no período. A rentabilidade real é o que sobra desse número depois de descontada a inflação; é ela que mostra quanto o poder de compra do patrimônio efetivamente aumentou. Para a aposentadoria, o que importa é a rentabilidade real, e não apenas a comparação com um benchmark como o CDI. Afinal, não basta acumular mais reais ao longo do tempo; é preciso preservar o poder de compra desse patrimônio.
E o que é, exatamente, um benchmark? É a régua usada para avaliar se uma carteira teve um bom desempenho: um índice, ou combinação de índices, escolhido como referência de comparação. O CDI é o benchmark mais conhecido do mercado, mas não é o único, e os perfis de investimento da Funpresp-Jud mostram bem isso.
É tentador imaginar que, se o objetivo fosse apenas acompanhar a Selic, bastaria concentrar os recursos em ativos pós-fixados de baixíssima volatilidade. O problema é que essa tranquilidade pode ter um custo no longo prazo. Ações, títulos de prazo mais longo e outros ativos sujeitos a oscilações podem oferecer prêmios associados aos riscos assumidos. Evitar toda volatilidade em nome da previsibilidade pode significar abrir mão de parte do retorno potencial.
Isso não quer dizer que resultados ruins devam ser aceitos sem questionamento. Rentabilidade precisa ser acompanhada. A questão é escolher a régua adequada. Julgar uma carteira previdenciária apenas pelo CDI é como avaliar uma viagem inteira pelos primeiros quilômetros da estrada.
Até títulos públicos podem provocar desconforto: quando os juros de mercado sobem, títulos prefixados ou indexados à inflação com vencimentos longos podem cair de preço. Essa oscilação aparece na rentabilidade, embora, para quem mantém o título até o vencimento e recebe os pagamentos previstos, a situação seja diferente da venda no meio do caminho.
Talvez uma das maiores dificuldades do investidor de longo prazo seja distinguir volatilidade de fracasso. Importa saber se a estratégia está adequada ao horizonte, se o desempenho é compatível com o risco assumido, se o patrimônio preserva poder de compra e como a carteira se comporta em períodos longos.
Há ainda um elemento cuja força só aparece com o tempo: os juros compostos. Ao longo de décadas, pequenas diferenças de retorno real podem produzir grandes diferenças no patrimônio final. Na previdência, esse patrimônio resulta de contribuições, eventual contrapartida do patrocinador, rentabilidade e tempo. É justamente o tempo que esquecemos quando julgamos uma estratégia pelo resultado de um único mês.
O CDI continua sendo uma referência importante. O erro está em transformá-lo na única. Para recursos de curto prazo, pode ser uma ótima régua. Para um projeto de aposentadoria, porém, é preciso olhar além dele.
Quando chegamos ao destino, acredito que aquela conversa deixou o motorista um pouco mais tranquilo sobre sua previdência. Eu, por minha vez, saí do carro levando a matéria-prima para este artigo. Mais uma vez, uma conversa com um desconhecido havia me dado uma boa história e, principalmente, uma boa pergunta.
E você, participante da Funpresp-Jud: ainda acredita que o CDI deve ser a única régua para medir o desempenho da sua reserva previdenciária?