Quando eu era jovem, imaginava que o futuro demoraria muito para chegar. A grande surpresa que tive, com a chegada da maturidade, foi descobrir que ele chega muito mais rápido do que esperamos.
Hoje, o aumento da expectativa de vida é um fenômeno amplamente conhecido. Ainda assim, poucas pessoas se convenceram de que precisam elevar sua taxa de poupança para enfrentar a longevidade. Sabemos que viveremos mais, mas continuamos agindo como se a aposentadoria fosse um problema distante demais para merecer atenção agora.
Minha formação inicial em finanças foi totalmente baseada no pensamento econômico tradicional. Segundo essa visão, investidores agiriam de forma plenamente racional, sempre orientados pela maximização de resultados. Por essa lógica, bastaria explicar que, ao começar a poupar para a aposentadoria aos 25 anos, cerca de 30% do resultado virá do seu próprio esforço e 70% dos juros. Se deixar para começar aos 55, essa proporção praticamente se inverteria. E mais: se iniciar cedo e ainda contar com contribuição patronal e incentivos fiscais, como ocorre na Funpresp-Jud, menos de 20% do resultado poderá vir do seu esforço direto. Em tese, isso deveria bastar para convencer qualquer pessoa a aderir logo no início da carreira.
Mas a realidade não funciona assim.
Foi justamente para explicar esse descompasso entre lógica e comportamento que surgiram as Finanças Comportamentais. Daniel Kahneman e Amos Tversky mostraram, por meio de experimentos, que emoções, atalhos mentais e vieses cognitivos influenciam profundamente nossas escolhas. Em 2002, Kahneman recebeu o Prêmio Nobel de Economia, consolidando um campo que questiona a ideia de racionalidade plena e demonstra que cometemos erros sistemáticos de julgamento.
Um dos principais obstáculos à formação de poupança para a aposentadoria é o que as finanças chamam de desconto intertemporal. Em termos simples, trata-se da nossa tendência de atribuir menos valor a recompensas futuras do que a ganhos imediatos. O futuro é sempre “descontado” pelo cérebro. O agora fala alto; o amanhã sussurra.
Talvez você já tenha visto o famoso teste do marshmallow, em que crianças são colocadas diante de um doce e informadas de que, se esperarem alguns minutos sem tocá-lo, receberão outro igual. Se para muitas crianças já é difícil resistir por alguns minutos para dobrar a recompensa, imagine o desafio de um adulto que precisa abrir mão de consumo hoje para colher benefícios décadas depois.
A dificuldade é ainda maior porque o nosso “eu do futuro” parece distante. Em um artigo de 2009, Saving for the Future Self, Hal Hershfield e seus coautores mostraram, com base em estudos de neuroimagem, que enxergamos o próprio eu do futuro como alguém distante. Em termos simples, o idoso que um dia seremos parece, para o cérebro, outra pessoa. Assim, ao poupar para a aposentadoria, o cérebro pode interpretar como um sacrifício em benefício de um estranho.
Enquanto isso, o presente é urgente: contas, filhos pequenos, aluguel ou financiamento imobiliário, carreira, viagens, imprevistos. O futuro, por outro lado, parece distante, flexível e generoso. Sempre haverá tempo depois.
Também nos iludimos com a ideia de que, no futuro, estaremos mais organizados, ganharemos mais e conseguiremos compensar o tempo perdido. Porém, em previdência, adiar não é neutro. Cada ano de postergação exige um esforço maior lá na frente. O tempo, quando perdido, cobra caro.
No Brasil, esse debate é ainda mais importante por razões demográficas. Somos um dos países que envelhecem mais rapidamente. Isso pressiona fortemente os sistemas públicos de previdência, que funcionam em regime de repartição. Isto é, quem trabalha hoje financia a aposentadoria de quem já se aposentou. Como o número de idosos cresce e a população economicamente ativa tende a se estabilizar, e depois diminuir, uma pressão crescente vai se formando. É por isso que sistemas de capitalização individual, como os planos de previdência complementar, se tornam cada vez mais relevantes.
Mas como vencer essa procrastinação, quando o assunto é aposentadoria?
Quero trazer aqui uma metodologia muito interessante, baseada em Finanças Comportamentais, desenvolvida no Banco Itaú e coordenada pelo professor Martin Iglesias, que tive a felicidade de participar do desenvolvimento: a regra do 1, 3, 6, 9. Apesar da simplicidade aparente, ela é fruto de muita pesquisa e análise de dados. Sua grande virtude está justamente em transformar um objetivo distante e abstrato em metas concretas ao longo da vida.
A lógica do método é a seguinte: começar a poupar para a aposentadoria aos 25 anos. A partir daí, aos 35 anos, a pessoa deveria ter acumulado o equivalente a 1 ano de renda bruta, em sua reserva previdenciária. Aos 45 anos, o ideal seria ter 3 anos de renda. Aos 55, 6 anos de renda. E, aos 65, 9 anos de renda.
O modelo cria marcos fáceis de entender e acompanhar. Em vez de falar de um valor gigantesco e distante, ele divide a caminhada em etapas. Isso é muito importante do ponto de vista comportamental, porque metas intermediárias são psicologicamente mais mobilizadoras do que objetivos vagos para daqui a quarenta anos.
Muita gente pode achar muito acumular o equivalente a 9 anos de renda, mas aqui está justamente o ponto central do método: quando se começa cedo, o esforço necessário é surpreendentemente pequeno. Se a pessoa iniciar aos 25 anos, basta poupar cerca de 10% da renda, ao longo da vida, para atingir esse objetivo.
Esse é o primeiro ponto que merece destaque. Começar cedo transforma um desafio enorme em uma tarefa administrável. O tempo trabalha a favor, e os juros compostos deixam de ser um conceito abstrato para se tornarem um aliado real.
O segundo ponto importante é que cada ano de atraso aumenta a taxa de esforço necessária. Se a pessoa não começou aos 25, pode usar uma regra prática: até os 35 anos, deve poupar o equivalente à idade menos 15. Assim, quem começa aos 30 anos deve poupar 15% da renda. Quem começa aos 35, 20%. Dez anos de atraso, no início, dobra o esforço.
Após os 35 anos, a situação piora ainda mais. Entre 35 e 45 anos, já não se subtrai 15, mas apenas 10. Isso significa que, se alguém só começa aos 40, precisará poupar 30% da renda. Se deixar para os 45, terá de reservar 35%. Aos 50 anos, o esforço exigido para alcançar a meta sobe para impressionantes 50% da renda.
Aqui está o terceiro ponto central do método: o atraso não cresce de forma linear, ele se torna brutal. É por isso que gosto de dizer que começar a se preparar para a aposentadoria aos 25 anos é como fazer um passeio no parque. Aos 35, é como subir o Pico do Jaraguá. Aos 45, é como encarar o Aconcágua.
E há ainda um quarto ponto fundamental, especialmente no contexto da Funpresp-Jud: a contribuição patronal, que muda radicalmente a equação. Quando existe contrapartida da patrocinadora e ainda há incentivos fiscais, o caminho fica muito mais leve. O esforço individual diminui significativamente e o tempo passa a trabalhar ainda mais a favor.
Em outras palavras, deixar de aderir cedo, quando se tem esse benefício, é abrir mão de uma das melhores oportunidades de construção patrimonial de longo prazo. Com a Funpresp-Jud, além de o caminho ser muito mais simples, você ainda pode chegar muito mais longe do que o equivalente a 9 anos de renda, o que lhe proporcionará uma aposentadoria com muito mais qualidade de vida.
No fim das contas, a melhor data para começar a se preparar para a aposentadoria é aos 25 anos. A segunda melhor data é hoje.
É preciso romper a ilusão de que aposentadoria é um tema do fim da carreira. Ela não começa aos 60 anos, começa na primeira contribuição. Não será resolvida por uma decisão heroica perto da aposentadoria, mas por pequenas decisões repetidas ao longo do tempo.
Afinal, dificilmente você vai querer depender do governo ou de terceiros para sustentar os longos anos de vida que a revolução da longevidade nos proporcionou.