Por Jurandir Sell Macedo, Doutor em Finanças Comportamentais
Segundo uma pesquisa da empresa Data8, publicada pela Folha de S.Paulo, três em cada dez brasileiros com mais de 50 anos acreditam que viverão até os 100 anos. É uma projeção um tanto otimista, já que, segundo as Nações Unidas, em 2065 o Brasil deverá ter cerca de 180 mil centenários: aproximadamente 60 mil homens e 120 mil mulheres. Ou seja, apenas 8,7 centenários para cada 10 mil brasileiros.
Se tantos brasileiros acreditam que vão viver tanto, poderíamos supor que esses otimistas estariam se preparando financeiramente para uma vida tão longa. Porém, a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, publicada pela Anbima em parceria com o Datafolha, revela um descompasso entre expectativa e ação mesmo nas classes economicamente mais elevadas. Entre as classes A e B, metade acredita que dependerá da Previdência Social; entre os já aposentados, esse percentual sobe para 91%. Entre os brasileiros não aposentados, 15% acreditam que poderão trabalhar durante toda a vida e 13% acham que poderão contar com suas aplicações financeiras. De forma preocupante, apenas 5% acreditam que sua renda virá da previdência privada.
Depender apenas da Previdência Pública sempre envolveu riscos. Com o rápido envelhecimento da população brasileira, esse risco se torna ainda maior. Em 2000, para cada brasileiro com 65 anos ou mais, havia 9,6 pessoas entre 18 e 65 anos. Hoje, essa proporção é de cerca de 5,4. As projeções apontam para 2,6 em 2050 e somente 1,7 em 2070. Diante desse quadro, a tendência é que o teto da Previdência continue caindo rapidamente e a idade mínima continue subindo.
E qual é o motivo para uma percepção tão otimista quanto à expectativa de vida e tão descuidada quanto à preparação para a longevidade?
A crença de que viveremos até os 100 anos decorre, em parte, da interpretação incompleta de uma estatística conhecida. Entre 1950 e 2022, a expectativa de vida ao nascer no Brasil passou de 48,5 para 75,8 anos, um avanço de 27 anos e quatro meses. O dado é correto, mas grande parte desse ganho resultou da redução da mortalidade infantil e das mortes precoces. Para quem já chegou à velhice, o avanço foi menor: aos 65 anos, a expectativa de vida aumentou pouco mais de seis anos; aos 85, apenas dois anos e oito meses. Viver mais não significa, necessariamente, viver até os 100.
Já a dificuldade de encarar a preparação para a longevidade tem uma explicação psicológica. Em estudo com ressonância magnética funcional, pesquisadores da Universidade Stanford observaram que, ao pensar em si mesmas no futuro, as pessoas apresentam padrões de atividade cerebral mais próximos daqueles acionados ao pensar em outra pessoa do que em si mesmas no presente. Quanto menor essa conexão percebida entre o “eu de hoje” e o “eu de amanhã”, maior a tendência de preferir uma recompensa menor e imediata a um benefício maior no futuro. Em outras palavras, poupar para a aposentadoria parece, emocionalmente, um sacrifício em favor de um estranho.
Em um estudo posterior, os mesmos pesquisadores mostraram aos participantes versões digitalmente envelhecidas de seus próprios rostos. Ao interagir com essa imagem do futuro, eles se dispuseram a destinar uma parcela maior de recursos à aposentadoria. O resultado não prova que uma fotografia envelhecida resolva o problema da poupança, mas ilustra uma ideia importante: quanto mais real e próximo parecer o nosso eu futuro, maior a disposição de tomar decisões que o protejam.
Em outra pesquisa, o psicólogo Daniel Gilbert, da Universidade Harvard, e seus colegas chamaram de “ilusão do fim da história” a tendência de acreditar que mudamos muito no passado, mas mudaremos pouco daqui em diante. O problema é que valores, interesses e prioridades continuam se transformando ao longo da vida. Por isso, não basta calcular quanto dinheiro será necessário na aposentadoria: é preciso aceitar que, aos 75 anos, talvez você queira uma vida diferente da que imagina hoje, com outros interesses, prioridades e necessidades.
Temos dificuldade em criar uma representação emocionalmente vívida e psicologicamente conectada do nosso eu idoso. E quanto mais distante esse futuro, menor tende a ser essa conexão.
Foi outro psicólogo, Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia, quem nos deu a chave para entender por que essa dificuldade se traduz, na prática, em adiamento. Em “Rápido e Devagar”, ele descreve duas formas de pensar que convivem em nós. O Sistema 1 é rápido, automático e emocional: reage ao imediato, busca a recompensa agora, prefere a viagem, a compra ou o conforto do presente. O Sistema 2 é lento, deliberado e racional: é ele que compreende as estatísticas de longevidade, faz as contas e enxerga a necessidade de se preparar.
O Sistema 2 sabe que temos uma chance grande de ficar velhos. O problema é que, no dia a dia, quem decide costuma ser o Sistema 1, e ele sempre encontra um bom motivo para deixar a adesão “para o mês que vem”. A cada mês, o consumo presente vence o cuidado com o futuro. Não por falta de informação ou de renda, mas porque estamos travando a batalha errada: tentando vencer, todos os dias, um adversário que joga em desfavor do nosso eu futuro.
E é justamente aqui que está uma das maiores vantagens de um plano de previdência complementar como o da Funpresp-Jud, muitas vezes esquecida diante de benefícios mais evidentes. Sim, há a contrapartida da patrocinadora, que praticamente dobra sua contribuição até o limite previsto, um retorno imediato que nenhum outro investimento oferece. Há a dedução no Imposto de Renda, que permite adiar e reduzir a tributação. Há o seguro de renda, que protege você e sua família diante do inesperado. Porém, uma vantagem poderosa, e a menos percebida, é a recorrência.
Ao aderir, você toma uma única decisão do Sistema 2, lenta, racional e informada, e a transforma em ação automática. A contribuição passa a acontecer todo mês, sem depender de força de vontade, sem exigir que você vença a tentação do consumo presente repetidamente. Em outras palavras, você “engana” o Sistema 1: em vez de lutar contra ele doze vezes por ano, por todos os anos da sua vida profissional, você o neutraliza de uma só vez. É a decisão racional protegendo você das decisões impulsivas de todos os meses seguintes.
No fim das contas, falar de longevidade é falar de escolha, de dignidade e de liberdade. A verdadeira questão não é apenas quantos anos você viverá, mas quem decidirá como esses anos serão vividos. Poupar hoje, não é abrir mão do presente. É comprar autonomia para o amanhã. É garantir que, aos 75, 80 ou 90 anos, o seu “eu” do futuro tenha o direito de escolher o padrão de vida que deseja, em vez de tê-lo decidido pelas circunstâncias. Essa é a diferença entre envelhecer com liberdade e envelhecer sem opções.
E para transformar esse planejamento em segurança concreta, os participantes da Funpresp-Jud contam com o benefício por sobrevivência, que garante a continuidade da renda mesmo quando a longevidade supera as expectativas inicialmente projetadas. Afinal, viver mais deve ser motivo de celebração, e não de preocupação com a falta de recursos.
Você não precisa esperar viver até os 100 anos para começar. Basta reconhecer que há uma grande chance de viver por muitas décadas e que seu eu futuro dependerá das escolhas que você faz agora. Se ainda não aderiu à Funpresp-Jud, acione o seu Sistema 2: conheça as regras, faça uma simulação e decida. Depois, deixe a recorrência trabalhar a favor de quem você será.