Por Jurandir Sell, Doutor em Finanças Comportamentais
Eu tenho muito medo de viajar de avião. Qualquer turbulência mais forte me deixa apavorado. Por duas vezes, desmaiei em voos e, em uma delas, caí no banheiro e quebrei três costelas.
Felizmente, supero o medo. Passei os últimos 30 anos viajando quase todas as semanas a trabalho e também nas férias. Foram centenas de voos. Por outro lado, dirijo tranquilamente por trechos da BR-101, em Santa Catarina, com o nada honroso título de 1º lugar no país em sinistralidade, e pelo trecho mais perigoso da BR-282, de pista simples e cheio de curvas na Serra do Mar.
Racionalmente, sei que corro muito mais riscos viajando de carro do que de avião. Em 2024, último ano com estatísticas disponíveis, o Brasil sozinho perdeu 150 vezes mais vidas no trânsito do que toda a aviação comercial do planeta.
Nos EUA, onde as estradas são muito mais seguras do que no Brasil, voar é 500 vezes mais seguro do que dirigir. E o meu medo de avião me fez procurar outra estatística: 500 vezes é em relação à distância percorrida; quando comparamos o tempo dentro de um avião ou de um carro, a vantagem cai para apenas 9 vezes. Mesmo assim, a vantagem do avião é incontestável.
Os números são robustos, mas o medo não lê estatísticas. Ele nasce também da sensação de não estar no comando. Em psicologia, isso se chama ilusão de controle. Esse viés foi descrito pela psicóloga Ellen Langer, na década de 1970. Em um experimento, algumas pessoas podiam escolher o próprio bilhete de loteria; outras recebiam um bilhete aleatório. A chance de ganhar era a mesma. Ainda assim, quem havia escolhido o bilhete atribuía a ele um valor muito maior. O simples ato de escolher produzia uma sensação de controle sobre um resultado aleatório.
Porém, este artigo não é sobre aviação, e sim sobre mercado financeiro, onde o medo e a ilusão de controle também atuam fortemente.
Quando escolhemos uma ação, decidimos a hora de comprar um título ou mudamos a carteira de investimentos, sentimos que estamos no comando. Quando vem uma crise, acreditamos que seremos rápidos o suficiente para escapar dela. Acreditamos também que temos mais capacidade de identificar oportunidades do que um profissional.
Gerir nosso dinheiro nos dá uma sensação de domínio parecida com a de segurar o volante. Delegar a gestão do patrimônio, por outro lado, é como embarcar num avião. Um exemplo recente mostra a dificuldade de gerir patrimônio por conta própria, mesmo para quem tem toda a estrutura para isso.
A Gávea Investimentos, gestora fundada por Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, decidiu encerrar sua família de fundos multimercado macro e desistiu de gerir R$ 2 bilhões em ativos. Os fundos vinham entregando retorno abaixo do esperado desde 2023. Se uma equipe com décadas de experiência, grande estrutura e acesso a informações que o investidor comum jamais terá encontra dificuldade para superar o mercado de forma consistente, por que tantas pessoas acreditam que vão se sair melhor sozinhas?
Levando essa lógica para a previdência, é questionável acreditar que uma pessoa, dedicando boa parte do tempo à profissão que lhe paga o salário, conseguirá superar a gestão profissional e ainda compensar todas as vantagens de um plano previdenciário.
As contribuições para a previdência podem ser deduzidas em até 12% da renda bruta tributável no Imposto de Renda. Na Funpresp-Jud, o benefício pode ser ainda maior para o participante patrocinado, porque as contribuições normais realizadas por ele, de até 8,5%, também são utilizadas no abatimento fiscal.
Diferentemente dos fundos de investimento tradicionais, não existe come-cotas: o dinheiro segue rendendo sem a mordida semestral do Imposto de Renda, que reduz o efeito dos juros compostos. Há ainda a contrapartida do patrocinador, que contribui de forma paritária, até os limites do plano.
Existe também algo que a gestão própria também não oferece: o Fundo de Cobertura de Benefícios Extraordinários (FCBE). Mesmo que o participante viva além da expectativa de sobrevida usada no cálculo original do benefício, ele continua recebendo parte da renda, corrigida pela inflação, até o fim da vida. Tudo isso com gestão profissional, sem exigir do servidor a tarefa de prever o mercado sozinho por décadas.
Há ainda o Seguro de Renda, uma proteção adicional facultativa para situações em que o planejamento financeiro pode ser interrompido de forma abrupta. Ele oferece cobertura em caso de invalidez permanente total ou morte, ajudando a preservar a renda do participante ou de sua família justamente quando ela se torna mais necessária. Além disso, seu custo é inferior ao de coberturas semelhantes contratadas individualmente no mercado, e o valor pago pode gerar benefício tributário na declaração completa do Imposto de Renda.
Para fechar, preciso ser honesto com você. Eu não tenho escolha. Não existe voo que me leve até a minha fazenda em Bocaina do Sul. Minha família e eu seguimos enfrentando a BR-282 e a BR-101 porque não há alternativa. A maior parte dos brasileiros também não pode escolher a Funpresp-Jud, pois ela é exclusiva para membros e servidores do Poder Judiciário da União, do Ministério Público da União e do Conselho Nacional do Ministério Público.
Agora se você tem essa porta aberta e, mesmo assim, opta por gerir sozinho o seu patrimônio, abrindo mão da dedução no Imposto de Renda, da ausência de come-cotas, da contrapartida do patrocinador e da proteção previdenciária, a explicação já não é falta de opção. É a mesma sensação que me faz temer mais a turbulência do que a curva da Serra do Mar: a ilusão de que, com as mãos no volante, estou automaticamente mais seguro.
Às vezes, o caminho mais racional é exatamente o contrário: soltar o volante e deixar quem entende pilotar o avião ou gerir os recursos destinados ao nosso futuro.