Busca por risco é desafio para fundação

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Conforto criado por juro alto atrasou evolução do setor, segundo Roland Berger

Fonte: Valor Econômico

Por Juliana Schincariol, em 06/03/2020

 

As políticas de investimentos dos fundos de pensão para 2020 indicam que as fundações vão aumentar o risco de suas carteiras diante dos juros nas mínimas históricas, que pressionam as metas atuariais. Essa movimentação, contudo, representa um desafio para as entidades de previdência fechada. Elas não estão preparadas para o ambiente competitivo e de diversificação de ativos necessária, alerta a consultoria alemã Roland Berger. “O setor previdenciário brasileiro terá de se transformar, modernizando estratégias e modelos de gestão”, afirma ao Valor o diretor Daniel Martins.

Além do longo histórico de investimento concentrado em títulos públicos – que já não apresentam os mesmo retornos do passado -, a reforma da Previdência sugere que há espaço para abertura do mercado, incluindo a competição com a previdência aberta, e consolidação entre os fundos de pensão, segundo a consultoria. Isso por conta da obrigatoriedade de criação de fundos de previdência complementar para servidores públicos.

Para a Roland Berger, o “conforto” criado pelos altos juros de outrora não criou um ambiente de modernização e evolução no setor. Para alcançar retornos mais atrativos no cenário de juros nas mínimas históricas, as organizações terão que revisitar políticas de investimentos e regras de apetite a risco. E apesar de alguns já terem começado, ainda há muito espaço para se modernizar e crescer, segundo Martins. “Com teses de investimentos adequadas, a chance de retornos é maior. O cenário muda ao longo do tempo, e de forma muito rápida. É preciso que esses fundos sejam capazes de se adaptar ao longo do tempo, ou seja, construir e atualizar uma tese de investimento de forma rápida”, afirma.

Mesmo que algum movimento em direção ao risco venha sendo feito, as fundações brasileiras ainda figuram entre as mais conservadores do mundo. A proporção de ativos de renda variável nas carteiras é inferior a 10%, ante fatia de mais de 40% em países como Holanda ou Austrália, compara a Roland Berger, em um estudo chamado “Novos Desafios e Transformações do Mercado de Previdência”.

Algumas das principais fundações do país – casos de Previ, Petros e Funcef – possuem posições maiores em renda variável, mas muito concentrada. E as alocações no exterior dos fundos de pensão como um todo não chegam a 2%, apesar de a legislação estabelecer um limite de até 10% das carteiras.

No ano passado, a maioria das fundações ainda teve resultados acima das metas atuariais. A mediana das rentabilidades foi de 9,56% para a renda fixa e de 38% no caso da renda variável, segundo a consultoria Aditus, que presta serviços para 119 fundações, com patrimônio total de mais de R$ 200 bilhões. Os investimentos em bolsa não representam nem 10% dos portfólios, enquanto a renda fixa chega a 85%. “O ano de 2020 começou com uma demanda por estudos de reavaliação dos ativos, mudança de estruturas e seleção de gestores. Não sei se vai chegar naquilo que o mercado espera em termos de alocação de renda variável, mas me parece que será dado um passo importante”, diz o sócio da Aditus, Guilherme Benites. Os mais recentes estudos atuariais apontaram a necessidade de venda títulos públicos marcados a mercado assim como as políticas de investimento a partir de 2020 já preveem aumento dos limites de alocação em renda variável.

Na fundação Real Grandeza, que já tem mais de 20% alocados no segmento, a bolsa é o “carro-chefe” de sua atual estratégia. O fundo de pensão ainda está estudando se fará investimentos no exterior e considera alocar recursos em fundos multimercados. “Mas as taxas precisam ser atrativas”, diz o presidente da entidade, Sergio Wilson Ferraz Fontes.

No ano passado, a rentabilidade foi de 21,2% no plano de contribuição definida e de 19,5% no de benefício definido, mais do que o dobro das metas atuariais (de 12,6% para o CD e de 10,3% para o BD). A fundação vendeu 30% das NTN-Bs (títulos atrelados ao IPCA) marcadas a mercado, cerca de R$ 1,2 bilhão, depois que o estudo atuarial indicou a necessidade de venda de toda essa carteira. Parte disso foi para bolsa e parte foi aplicada em Selic. O patrimônio é de R$ 18 bilhões, e em 2019 a entidade pagou R$ 1,2 bilhão em benefícios.

Com cerca de R$ 3 bilhões de patrimônio, a Viva Previdência, fundo de pensão instituído para funcionários públicos, aumentou o teto para alocações em renda variável para 30%. “Vamos aumentar gradativamente com gestores terceirizados”, diz o presidente, Silas Devai. A política de investimentos passou a prever investimentos em fundos imobiliários, multimercados e no exterior. E atenta ao movimento de consolidação, a Viva Previdência assumiu recentemente o gerenciamento da Anaparprev, voltada para os membros da Associação Nacional dos Participantes de Fundos de Pensão.

Outra fundação atenta a esse movimento é a Funpresp-Jud, fundo de pensão dos servidores do Poder Judiciário, com R$ 800 milhões. A entidade está selecionando novos gestores e administradores para fundos de investimentos, visando maior diversificação dos seus ativos. Uma alocação mais variada é preocupação desde o início da fundação em 2013, diz o diretor de investimentos, Ronnie Tavares. A preocupação, no entanto, aumenta com o recuo dos juros. Agora, a participação em renda variável pode chegar a 50% da carteira, ante um limite anterior de até 20%. “Não vamos deixar de comprar renda fixa mesmo que a taxa não pague a nossa meta. Mas vamos procurar batê-la e gerar alfa [retorno adicional] em outros segmentos.”