Por Jurandir Sell Macedo, Doutor em Finanças Comportamentais
Na tradição cristã, especialmente na católica, maio é dedicado a Maria, mãe de Jesus, símbolo da maternidade. Essa devoção, que remonta ao século XI na Europa, consolidou a ideia de maio como um tempo de honrar as mães.
O Dia das Mães, porém, é bem mais recente. Sua origem remete a 1908, quando Anna Maria Jarvis enviou 500 cravos brancos a uma igreja, no segundo domingo de maio, para homenagear sua mãe, Ann Reeves Jarvis, ativista dos direitos humanos e defensora da redução da mortalidade infantil, falecida em 1905.
O movimento ganhou força e, em 1914, o então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, oficializou a data como celebração nacional. No Brasil, o Dia das Mães foi instituído em 1932, por Getúlio Vargas, também no segundo domingo de maio.
Há, contudo, uma ironia nessa história. Anna Maria Jarvis dedicou parte da vida à criação da data, mas passou seus últimos anos combatendo justamente aquilo que ajudou a instituir. Indignou-se com a rápida transformação de um momento de reflexão e afeto em uma oportunidade comercial.
Talvez a indignação de Anna Jarvis nos lembre que o Dia das Mães deveria ser menos sobre consumo e mais sobre reconhecimento. Reconhecer, antes de tudo, a dimensão humana, física e emocional da maternidade. Devemos a continuidade da humanidade às mulheres que decidem ter filhos. No entanto, essa decisão carrega um custo desproporcional. A maternidade ainda impõe às mulheres uma penalidade relevante, especialmente no campo profissional.
Mulheres com filhos enfrentam interrupções na carreira, redução de renda e menor progressão profissional. Muitas vezes, são obrigadas a fazer escolhas difíceis entre o avanço profissional e as demandas da maternidade. Além disso, assumem, de forma desproporcional, os custos financeiros e emocionais da criação dos filhos, uma responsabilidade que exige não apenas dedicação, mas também consciência sobre seus impactos no longo prazo.
Existe a crença de que a educação é o grande equalizador. Os números, porém, contam outra história. Segundo o IBGE, entre trabalhadores com ensino superior completo, as mulheres ganham, em média, 37,5% menos que os homens, embora 28,9% das mulheres ocupadas tenham diploma universitário, contra 17,3% dos homens. Entre diretores e gerentes, a diferença é de 32,7%. A desigualdade também aparece no topo: segundo o IBGC, em 2025, elas ocupavam apenas 21,1% dos assentos em conselhos de administração, abaixo dos 30% da meta estabelecida pela Lei nº 15.177. Elas estudam mais, chegam mais longe, mas continuam recebendo menos.
A esse quadro soma-se um elemento ainda pouco valorizado nas análises econômicas: a chamada tripla jornada. Além da atuação no mercado de trabalho, muitas mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e pelo cuidado com os filhos. Segundo a PNAD/IBGE, as mulheres dedicam quase o dobro do tempo dos homens às tarefas domésticas: 21,4 horas semanais, contra 11 horas. Em outras palavras, elas carregam praticamente uma segunda jornada invisível.
E há mais. Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, cresce também a chamada economia do cuidado. Nesse contexto, as mulheres assumem, com frequência, a responsabilidade por pais, sogros e outros familiares idosos. Trata-se de um trabalho essencial para a sociedade, mas que, na maioria das vezes, é invisível, não remunerado e com impacto direto sobre a renda, a carreira e a capacidade de acumulação ao longo da vida.
O resultado é uma equação difícil de ignorar: menor renda ao longo da vida ativa, mais interrupções na carreira e, ao mesmo tempo, maior longevidade. Segundo a tábua de mortalidade 2023 do IBGE, as mulheres brasileiras têm uma expectativa de vida quase sete anos maior que a dos homens. Isso significa que precisam de mais recursos para financiar um período de aposentadoria mais longo.
Diante desse cenário, torna-se indispensável planejar sua aposentadoria com antecedência, buscar conhecimento e desenvolver a capacidade de decidir de forma consciente sobre o próprio futuro financeiro.
Isso se tornou ainda mais importante para as servidoras públicas após a reforma da Previdência de 2019. A integralidade foi preservada apenas para quem ingressou no serviço público até 31/12/2003. Para as demais, o benefício passou a ser calculado sobre a média de 100% das remunerações desde 1994, partindo de 60% dessa média, acrescida de 2% ao ano que exceder 20 anos de contribuição. Além disso, a idade mínima de 62 anos e o pedágio de 100% ampliaram o tempo de permanência no trabalho.
Apesar de tantos desafios, ainda é comum que muitas mulheres deleguem decisões de investimento ou as enxerguem como um território predominantemente masculino. Essa percepção, além de ultrapassada, compromete a segurança financeira no longo prazo. Não assumir o protagonismo significa abrir mão da possibilidade de construir autonomia.
Quando a vida impõe às mulheres uma combinação tão desafiadora, menor renda, mais tempo dedicado ao cuidado e maior longevidade, o planejamento financeiro deixa de ser uma recomendação genérica e passa a ser uma necessidade concreta. E, para quem atua no Judiciário da União, no Ministério Público da União e no CNMP, essa reflexão encontra um caminho institucional possível: a previdência complementar. Nesse contexto, a Funpresp-Jud se apresenta como um instrumento capaz de transformar consciência em ação, planejamento em proteção e intenção em um futuro financeiro mais seguro.
Um dos principais diferenciais é a contrapartida do patrocinador. A cada real contribuído pela participante, há uma contribuição equivalente do patrocinador, respeitados os limites do plano, o que eleva a velocidade de construção do patrimônio. Em termos práticos, isso significa dobrar parte do esforço de poupança, algo que não existe em outras alternativas de investimento.
Outro ponto relevante é o benefício fiscal. As contribuições podem ser deduzidas da base de cálculo do Imposto de Renda, dentro dos limites legais, o que aumenta a eficiência do processo de acumulação. Trata-se, portanto, de uma decisão que combina planejamento de longo prazo com otimização tributária.
Quando se considera a maior longevidade feminina, essa combinação ganha ainda mais importância. Não se trata apenas de investir, mas de construir uma estratégia coerente com a realidade de vida das mulheres, que exige mais tempo, mais recursos e mais disciplina.
Neste mês dedicado às mães, o gesto mais transformador é assumir o controle sobre o próprio futuro financeiro. Isso implica desenvolver consciência, buscar conhecimento, planejar com responsabilidade, decidir com autonomia e, sobretudo, agir. Cuidar dos outros sempre foi uma marca das mulheres, mas no mundo atual, cuidar de si mesma e do próprio futuro financeiro é uma extensão dessa mesma responsabilidade.
Independência financeira é questão de liberdade, autonomia e dignidade. Flores são bonitas e emocionam, mas não pagam contas, não financiam a velhice e não protegem ninguém da insegurança. Reconhecer as mulheres exige criar condições para que elas cuidem também de si mesmas, do próprio futuro e da própria aposentadoria.